Prematuro extremo, Isaac Mross Vieira nasceu em Porto Alegre com apenas 790 gramas, na 27ª semana de gestação. Seus frágeis 32 centímetros apresentaram a maioria das complicações próprias da prematuridade. Mas, todas vêm sendo superadas.
No útero da mãe, Andréia Mross Vieira, o feto parou de se desenvolver enquanto ela apresentava pressão alta e sintomas da pré-eclampsia - doença caracterizada por pressão arterial elevada (hipertensão) acompanhada de eliminação de proteínas pela urina (proteinúria) ou retenção de líquidos (edema), que atinge 10% das mulheres grávidas, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS).
- Fui internada no Natal, e, no dia 29, o médico disse que o Isaac não resistiria na minha barriga - relembra Andréia.
Isaac ficará mais três meses na UTI neonatal, com Andréia debruçada na incubadora 12 horas diárias. Porém, a neonatologia apresenta avanços de duas décadas para cá. Em outra época, Isaac não resistiria a problemas cardíacos, por exemplo. Ele nasceu com um canal arterial aberto, pois o coração ainda estava malformado. A cirurgia, um sucesso, durou 45 minutos.
Nos pulmões imaturos, recebeu uma substância para inflá-lo e receber oxigênio. Sem força para ingerir o leite materno por sonda, alimentou-se por um mês com um composto de soro, glicose, proteína e gordura, injetado na veia. Andréia pode dar três colos por dia a Isaac. Segundo ela, ele já sabe até os horários em que isso ocorre.
- Esse menino supera todas as complicações. Não é só a medicina que salva, mas também a luta do bebê - ressalta a neonatologista Doris Milman.
40 centímetros de força e tecnologia
Estudos comprovam que o bebê prematuro precisa que os pais fiquem ao seu lado, mesmo quando ainda estão nas incubadoras das UTIs neonatais
Asfixiado pelo cordão umbilical no útero da mãe, Guilherme Morais Boff (nas fotos destas páginas, junto aos pais) teve de sair às pressas, na 32ª semana de gestação. Filho de um casal porto-alegrense, ele é um típico fruto do avanço da neonatologia nos últimos 20 anos. Há duas décadas, as complicações de sua prematuridade possivelmente não lhe permitiriam sobreviver.
Hoje, elas são combatidas em unidades de terapia intensiva (UTIs) neonatais com tecnologias capazes de levar sobrevida a casos muito mais graves que o dele. No fim do mês passado, a norte-americana nascida com apenas 284 gramas, Amillia Sonja Taylor, deixou o hospital como o mais jovem bebê prematuro do mundo. Pouco antes, o carioca Arthur Teixeira saía da UTI pesando 385 gramas, sagrando-se o menor bebê já nascido no país.
Para desvendar as novidades da neonatologia e expressar o sentimento de pais e a força de um prematuro, aqui está o relato dos 34 dias de Guilherme na UTI neonatal do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre.
O susto no parto
Aparentemente, tudo corria bem até o sétimo mês de gestação da farmacêutica Titane Godoy Morais, 34 anos. Descansando com a mãe em Xangri-lá, no Litoral Norte, ela acordou na madrugada do dia 1° de fevereiro deste ano chorando, com violentas dores na barriga. Guilherme, o menino que se sacudia ali dentro, estava sendo estrangulado pelo cordão umbilical.
Foi o que o médico constatou no Hospital Santa Luzia, em Capão da Canoa, onde o coração do bebê apresentou 55 batimentos por minuto - o normal seriam 140. Titane estava impedida de voltar para Porto Alegre e segurar, durante o parto, a mão do marido, o administrador Luciano Boff, 31 anos. Ou Guilherme nascia ali ou morreria no útero da mãe dentro de uma hora.
A situação mostra o quanto ainda é difícil prever quais mulheres podem ter parto prematuro, ressalta o chefe da UTI neonatal do Hospital Mãe de Deus, Ercio Amaro Filho. Titane não se enquadrava em grupos de risco, como fumantes, usuárias de drogas, desnutridas ou com níveis altos de estresse na rotina. E todos os exames pré-natais estavam absolutamente normais até então.
Numa cesariana de emergência, enquanto Luciano se dirigia à praia pela BR-290 (freeway), às12h07min, pulou de olhos abertos uma criaturinha de 43 centímetros e 1,5 quilo. Mas Guilherme foi logo separado da mãe e encaminhado, de ambulância, a uma UTI neonatal em Porto Alegre.
- Eu nem pude ver o rostinho dele. Meu maior trauma foi ficar longe do meu filho - conta Titane, que só pôde voltar à Capital dois dias depois, recuperada da cirurgia.
A incubadora
O avanço da neonatologia permitiu que algumas complicações com Guilherme fossem consideradas leves. Há 20 anos, ele não receberia surfactante, uma substância produzida em laboratório que provoca a expansão pulmonar nos prematuros. A morte por asfixia, naquela época, seria uma possibilidade patente.
- Ele teve a doença de membrana hialina, decorrente da imaturidade dos pulmões, muito fracos para sugar oxigênio - explica Doris Milman, neonatologista do Hospital Mãe de Deus, onde Guilherme ficou 34 dias internado.
Para os prematuros, o início da vida ocorre na UTI, um setor quase sempre relacionado a pacientes terminais. Ao simular o ambiente do útero, regulando a temperatura do bebê, a incubadora é conectada a uma série de aparelhos que fornecem oxigênio, nutrientes e leite materno por meio de uma sonda.
Durante 10 dias, Guilherme tomou antibióticos contra septicemia, uma infecção generalizada que talvez ele nem tivesse. Atualmente, os médicos preferem tratar o problema - capaz de causar meningite, derrames e pneumonia - antes de saber se ele existe.
Enquanto Guilherme esteve dentro da incubadora, por 23 dias, o contato físico com Titane e Luciano era mínimo. O manuseio freqüente, comum no passado, matava prematuros de estresse ou rompia vasos sangüíneos. Mesmo com as restrições, a mãe passava das 9h às 21h ao lado do bebê, sorrindo e conversando com ele. Ao ir embora, a fisionomia mudava.
- Os pais ficam tão frágeis como o prematuro. Sentem frustração e culpa por não terem gerado aquilo que seria a cria perfeita - analisa a psicóloga Nair Macena de Oliveira, coordenadora do Grupo de Apoio a Pais de Bebês da UTI Neonatal do Hospital da Criança Conceição.
O primeiro colo
Ansiosa por passar mais um dia ao lado da incubadora, Titane chegou à UTI às 9h do dia 24 de fevereiro e não viu o filho. Foram segundos de pânico.
- Na UTI, até as boas notícias precisam ser dadas com calma - observa Luciano.
Pesando quase dois quilos, Guilherme havia sido promovido. Deixara a incubadora para ingressar na sala intermediária, num berço espaçoso onde finalmente ganharia o abraço dos pais. Bem mais ativo, já podia mamar no peito e, nos horários do aleitamento, fazia estalos com a boca, pedindo a presença de Titane.
O estímulo à presença dos pais na UTI e ao contato físico, quando o prematuro deixa a incubadora, tornaram-se um dogma da neonatologia moderna. Desde o tempo na incubadora, Guilherme reconhecia a voz de Titane e de Luciano e se agitava quando colocavam as mãos dentro da redoma, por dois buracos.
- A proximidade dos pais faz a criança reagir e ganhar peso mais rápido. Todos os estudos e pesquisas comprovam isso - diz Amaro Filho.
A adoção de procedimentos mais humanos, como o método canguru, em que o bebê fica numa bolsa atada ao corpo da mãe e passa a ter contato pele a pele com ela, também geram resultados estimulantes. Guilherme sabia até a hora em que receberia o colo de Titane.
Para prematuros como ele, que perdeu peso ao nascer mas se manteve com 1,3 quilo na primeira semana, a taxa de sobrevivência é de 90%. Há duas décadas, 20% dos bebês nascidos com menos de 600 gramas sobreviviam. Hoje, o índice é de pelo menos 40%, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Enfim, em casa
Titane definiu a terça-feira como o dia mais feliz de sua vida e que será perpetuado pela foto acima. Certamente também foi o melhor da vida de Guilherme - embora tivesse apenas 34 dias, a rotina não vinha sendo fácil. Planejado havia meses pelos pais, o colorido quarto de uma casa na zona norte da Capital recebeu um menino sorrindo, de 2,1 quilos e 44,5 centímetros. E sem a menor possibilidade de seqüelas.
- A gente chega a rir com a evolução dele. Além de todos os avanços da medicina, é inegável a vontade que o Guilherme teve de melhorar - conclui a neonatologista Doris Milman, que acompanhou a trajetória do menino.
Titane e Luciano viram uma série de planos desabar, mas já compensam com novos. A sessão de fotos que exibiria a mãe grávida estava marcada, o chá de panelas também, e a filmagem do parto, idem. Titane ainda fez um curso de gestante, pouco aproveitado no repentino parto.
Vazio, na parede sobre a cama do casal, um imenso porta-retratos agora receberá fotos de uma história não-programada, mas testemunha da força de uma criatura de 43 centímetros. A neonatologia, que avança rapidamente, ajudou a garantir que Guilherme conhecesse sua casa. Espera-se que o próximo passo seja preventivo: garantir aos bebês o insubstituível útero materno no lugar de uma incubadora.
Números
Dos 3.026.548 bebês que nasceram vivos no Brasil em 2004, 196.537eram prematuros - o equivalente a 6,5%
24.311 prematuros morreram no Brasil, em 2004. No Rio Grande do Sul, foram 1.346
Fonte: Ministério da Saúde
Saúde
"A criança está bem mais amparada do que os pais"
Entrevista: Maria Julia Miele, fundadora do Instituto Abrace
Durante um ano e três meses Maria Julia Miele , 40 anos, acompanhou a filha Sofia na UTI. Ainda na gestação, começou a escrever sobre a dor de parir um bebê que nasceria com uma má-formação no coração. A criança morreu em julho de 2002, e Maria Julia seguiu relatando em papéis o luto e o amor por Sofia, origens do (2004, Terceiro Nome, 175 páginas, R$ 31). Ela fundou o Instituto Abrace (www.institutoabrace.org.br).
Zero Hora - Como surgiu a idéia do Instituto Abrace?
Maria Julia Miele - Numa UTI neonatal, a criança está bem mais amparada do que os pais. Não há amigo com estrutura emocional para ouvir o relato de uma mãe nessa situação. E não há psicólogo que substitua uma conversa com alguém que vivenciou isso tudo. Fui convidada pela USP (Universidade de São Paulo) para fazer um curso de gestão em Terceiro Setor, e foi lá que a idéia surgiu.
ZH - De que forma o Instituto apóia esses pais?
Maria Julia - Temos psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e jornalista voluntários. A maioria deles foi mãe ou pai de bebês na UTI. Todo o atendimento é on-line.
ZH - Histórias comoventes estão no site. A senhora estimula as pessoas a escreverem sobre isso?
Maria Julia - Estimulamos para que publiquem fotos também. Quando a mãe relembra e avalia tudo de forma organizada, escrevendo e validando essa análise com uma foto, ela revê a situação não apenas com dor. É como se pensasse: "Olha, não é que eu dei conta disso tudo?"
ZH - A senhora acredita que a Sofia lhe deixou um legado?
Maria Julia - Eu acredito que combinei tudo isso com ela antes de eu mesma nascer. Estou aqui cumprindo a minha parte, pois ela fez a parte dela, que foi bem mais difícil.