No mesmo momento em que era sepultada a menina Thalia, ao final de uma longa e comovente batalha contra a leucemia, ontem pela manhã, nascia uma esperança para outra pequena vítima da doença. Thyago Fofonka Flores, que veio ao mundo com 50 centímetros e três quilos, representa uma possibilidade de cura para sua irmã mais velha.
Desde agosto de 2006, Thiane, 12 anos, luta contra a mesma leucemia que levou Thalia, morta no domingo depois de não conseguir encontrar a tempo um doador de células-tronco. Se as sessões de quimioterapia a que se submete no Hospital da Criança Santo Antônio não derem resultado, a salvação de Thiane poderá vir de seu irmãozinho recém-nascido.
Se dependesse de um doador não-aparentado, ela teria 0,025% de chance de conseguir a aplicação de células-tronco necessária para se curar, por meio de um transplante de medula óssea ou do sangue coletado de um cordão umbilical. Se o sangue extraído ontem do cordão de Thyago for compatível, a menina poderá receber dele o transplante salvador. Entre irmãos, a chance de compatibilidade aumenta para 35%.
- Nos próximos dias, serão feitos os exames no Rio para saber se há compatibilidade - diz a professora da Faculdade de Farmácia da UFRGS e membro do Instituto de Pesquisa com Célula-tronco, Patricia Pranke.
Logo depois do nascimento de Thyago, no Hospital Conceição, o obstetra Francisco Allebrandt coletou o sangue, remetido ainda ontem para o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio. Lá, o material será congelado e poderá ajudar a salvar a vida de Thiane ou de qualquer outra criança que se mostre compatível.
Horas depois do parto, a mãe das crianças, a dona de casa Delma da Silva Fofonka, 38 anos, mostrava-se radiante com a chegada do caçula. Ela tem um terceiro filho, de 19 anos, que não teve afinidade com a irmã para o transplante de medula:
- Eu soube que estava grávida um mês depois da notícia de que a Thiane estava doente. Não foi planejado, foi Deus quem me deu essa graça.
Com o sistema imunológico debilitado pela doença, a irmã permaneceu em casa, mas estava ansiosa para conhecer o novo irmãozinho.
- Ela sabe que a cura pode vir dele - conta a mãe.
Francisco Allembrandt afirma que, ao saber da situação da irmã do recém-nascido, a equipe do Conceição se esmerou em garantir a coleta do sangue do cordão umbilical. Patrícia Pranke se responsabilizou por tentar contato com os bancos públicos de cordão umbilical existentes no país, no Rio e em São Paulo.
- O que fizemos não é rotina. Se tivéssemos um banco público no Estado, seria muito mais fácil, e a chance de salvação dessas crianças seria muito maior - afirma Patricia.
O custo inicial para a construção de um banco é de R$ 1,5 milhão, e cada congelamento de sangue retirado do cordão sai por R$ 4 mil. O custo de buscar esse tipo de material no Exterior, quando é detectada a compatibilidade, é hoje de aproximadamente R$ 46 mil.
A maior esperança de Delma não é que o caçula realize a missão de salvar a irmã. Enquanto acaricia Thyago, ao lado do pai, Genauro da Silva Flores, motorista de ônibus, a mãe sonha que a quimioterapia dê resultado e o cordão umbilical do seu menino cumpra uma tarefa igualmente nobre:
- Espero que ele possa salvar a vida de outra criança, como a Thalia.