Um bebê é considerado prematuro quando nasce com menos de 37 semanas de gestação, já que o tempo ideal de vida intra-uterina é de até 41 semanas. Além da idade gestacional, as chances de sobrevivência de um recém-nascido pré-termo estão diretamente relacionadas ao seu peso, condições de nascimento e o local onde nasce.
No Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, as chances passam a ser consideradas boas em recém-nascidos com peso acima de 750 gramas ou idade gestacional em torno da 26ª semana. "Em países com mais recursos que o Brasil, a criança é considerada viável acima de 24 semanas e com peso em torno de 500 gramas" , afirma o neonatologista Sérgio Tadeu Martins Marba, diretor da área de Neonatologia do Caism. A sobrevivência de um prematuro depende até do sexo da criança. "Se for menina, elas têm mais condições que os meninos, algo que não se sabe ainda muito bem explicar o motivo" , diz o pediatra Arthur José Canguçu de Almeida.
Segundo Sérgio Marba, apesar da baixa oferta de leitos neonatais, os prematuros nascidos em Campinas têm melhor atendimento em UTI neonatal se comparado a outras regiões do País. "Faltam leitos, mas essa carência depende do tamanho da região à qual você tem que dar cobertura. Recentemente incorporamos a região de São João da Boa Vista sem aumento proporcional de leitos. Isso causou uma demanda maior do que poderíamos atender e está sendo revisto pela administração municipal" . No Caism, são 30 leitos neonatais - 16 para UTI e 14 leitos de semi-intensivo/pré-alta.
O grande benefício da medicina atual para a sobrevivência dos bebês prematuros, acredita Marba, é resultado de vários avanços na área, como o uso da droga surfactante. "Destaco ainda o treinamento dos médicos, enfermeiros e equipe de apoio, equipamentos com respiradores neonatais, modernas incubadoras e boa monitorização. E, ao lado de toda a tecnologia, ganha força nos últimos anos o tratamento humanizado e individualizado para cada recém-nascido, com a participação dos pais no processo de internação de seus filhos" .
Mãe-canguru
O bebê prematuro que apresenta condições de vida sem seqüelas fora da incubadora pode ter o contato antecipado junto à mãe na Maternidade de Campinas, favorecendo o vínculo familiar. Segundo o pediatra Arthur José Canguçu de Almeida, esse contato é feito por meio do Mãe-Canguru, um modelo de tratamento idealizado por um médico da Colômbia e utilizado em várias instituições de saúde do Brasil. A técnica, que consiste em acomodar o recém-nascido junto à mãe ou ao pai, passou a ser adotada como forma de acelerar a alta hospitalar de bebês prematuros. Entre outros fatores, as crianças ganham peso mais rápido, ficam com respiração, batimentos cardíacos e temperatura ideais e desenvolvem maior imunidade em menos tempo de internação.
A professora Maria Teresa Saes de Crescenzo, 39 anos, foi uma das pacientes da Maternidade de Campinas que participaram do Mãe-Canguru. Teresa iniciou o contato pele-a-pele primeiramente com a filha Marina e, depois, com o filho Antônio. Os gêmeos nasceram por meio de uma cesariana realizada no dia 4 de maio, faltando apenas um dia para que entrassem na 31ª semana de gestação, depois da bolsa com o líquido amniótico ter rompido na madrugada.
"No dia do parto, fiquei nervosa, pois sabia que os prematuros teriam cuidados especiais e não sabia o que aconteceria com eles. Meu marido assistiu a tudo, muito tranqüilo" , conta. Os gêmeos Marina - a primeira a ser retirada do útero - e Antônio nasceram com 1.325 gramas e 1.425 gramas, respectivamente. "O Antônio apresentou incapacidade respiratória ao nascer, mas a Marina respirou normalmente. É impressionante como essa menininha é forte" , diz. Os dois ficaram na UTI Neonatal do hospital até completarem 1,5 quilo. "Mesmo tendo tido alta da maternidade antes dos meus filhos, meu marido e eu tínhamos acesso a qualquer hora do dia aos bebês na UTI, o que é muito reconfortante. Eu ia tanto de manhã quanto à tarde e ele ia de manhã e à noite" . Há cerca de um mês os gêmeos tiveram alta e pesam agora cerca de 2.700 gramas cada um.
A alta de bebês prematuros só acontece quando as crianças não precisam mais de cuidados especiais e atingem pelo menos dois quilos. Na Maternidade de Campinas, os prematuros são alimentados por meio de um Banco de Leite, que é mantido com o excedente produzido por mulheres doadoras. "Esse material é pasteurizado para eliminar possíveis vírus e não transmiti-los aos bebês durante sua alimentação, feita por meio de sonda até o estômago. Quando o prematuro tem condições de deixar a incubadora, o leite é dado em conta-gotas ou em copinhos, nunca em mamadeira, para que posteriormente a mãe tenha a chance de alimentá-lo no seio" , diz Arthur Almeida.