Leonardo nasceu com 1,105 gramas, 35 cm, com 28 semanas de gestação, por causa da pré-eclampsia.
Alguns dias antes do parto, a Dra. Juliana já havia me avisado que ele nasceria pequeno e que ficaria um tempinho na UTI para ganhar peso, mas isso não me preocupava, afinal, todo mundo conhece alguém que nasceu prematuro e hoje está ótimo.
Até que fui conhecê-lo, na UTI, e entrei em choque! Ele não era pequeno, era muuuiiitoo pequeno, e aí começou minha preocupação. Será que um bebê tão frágil, que cabia na palma da mão, sobreviveria?
Só quem tem um filho na UTI pra saber o quando eles precisam de cuidados, o quanto são frágeis e imprevisíveis, e o quanto o trabalho dos anjos da enfermagem é importante.
O Leo ficou 59 dias na UTI, mamou pela primeira vez no peito com 38 dias de vida, teve enterocolite, infecção, ganhava peso devagar e não dava para saber se teria alguma seqüela da prematuridade.
Com visitas de 30 minutos de manhã e à tarde, eu e meu marido nos desdobrávamos para ir vê-lo: a gente conversava muito com ele, e mesmo tendo a impressão de que ele não ouvia, a gente sentia que ele precisava daquilo. Nesse tempo todo, vivíamos num carrossel de emoções: nas visitas da manhã, ele estava bem, nas visitas da tarde, alguma coisa acontecia; num dia ganhava bastante peso, no outro perdia o dobro; num dia estávamos fortes, cheio de fé, no outro, o desespero prevalecia. Já passaram 30 dias, quantos dias mais teremos que esperar para levá-lo para casa? Por que aquele bebê que nasceu nas mesmas circunstâncias já está indo embora e o meu não? Por que aconteceu isso com a gente? Será que ele vai estar vivo amanhã (com dor no coração, mas esse pensamento sempre aparecia, camuflado com os outros).
Nesses momentos, sempre tinha alguém lá da UTI pra nos consolar, nos dar força e nos tranqüilizar. Alguns eram mais sensíveis ao que passamos, nos poupando de certas informações desnecessárias, nos esclarecendo prontamente as milhares de dúvidas, nos deixando ficar sempre um pouquinho a mais, quando a dor da separação era latente. Outros apenas cumpriam sua obrigação, mas com competência.
Com 38 dias de internação, comecei a fazer “mãe-canguru”. Por ter dado à luz antes do tempo, é como se estivesse gerando novamente. Algumas vezes ficava horas com ele na minha barriga, as costas doíam, a fome apertava, a bexiga enchia e as enfermeiras ficavam “doidas” comigo lá, mas nada disso era mais forte do que o meu amor por ele. Teve um dia que fiquei das 09 da manhã às 09 da noite, só saindo pra ir almoçar e na hora dos procedimentos. E mesmo assim só ia embora porque precisava estar lá cedo no dia seguinte. E nesse meio tempo, o coração ficava partido: um pedaço em casa e outros na UTI, porque mãe de prematuro sempre deixa um pedacinho do coração cada vez que vem embora.
E uma coisa era estranha no começo, mas a gente acaba se acostumando: ele não era o Leonardo ainda, era RN de Ana Paula! Era como se o Leo só fosse ser o nosso Leonardo depois que tivesse alta.
Sempre tive plena confiança no pessoal da UTI Neo. Os médicos sempre foram atenciosos, esclareceram nossas dúvidas, demonstravam que gostavam do que faziam. As auxiliares, então, falar o que delas? Com exceções, como tudo na vida, todas eram simpáticas e atenciosas, carinhosas com a gente e com todos os bebês que lá estavam. Elas vibravam com as nossas pequenas grandes vitórias, nos encorajavam a vencer os obstáculos e mimavam muito nosso bebê.
Nunca contestei nenhum tipo de procedimento realizado, não por submissão, mas por plena confiança na equipe. Todos estavam lá trabalhando pro bem daqueles bebês, e não conseguia entender como tinha pais que reclamavam. Acima deles, só Deus.
No dia da alta do Leo, foi como se ele tivesse nascendo de novo para nós! Toda a família ansiosa para conhecê-lo pessoalmente (pois só conheciam por fotos e vídeos), os preparativos na casa, a preocupação de cuidar de um bebê tão frágil, enfim, o grande dia chegou! Sem contar a festa que as meninas do plantão fizeram, comemorando aquele momento como se fossem delas, e na verdade era, porque se ele estava indo embora, era por causa delas também. Fizeram meu marido dar banho nele, tiraram muitas fotos, deram muitos beijinhos e pediram pra gente não esquecer de levá-lo pra revê-las.
Não me cabia em si de tanta felicidade, não sabia o que fazer para mostrar minha gratidão por elas, não sabia o que dizer a Deus pra agradecer por aquela vida. Aquele dia, como todos os outros 58, foram inesquecíveis pra nós: lembro de que cada cheiro, de cada procedimento, de cada apito (ah ! aquele apito do oxímetro quase nos matavam de susto no começo !). Até hoje parece que ainda o escuto de vez em quando.
E, de certa forma, fica uma pontinha de saudades: das meninas, dos médicos, da nossa fé e das lições aprendidas. E uma delas é que devemos ver que por maior que seja nosso problema, sempre existe alguém com um problema maior que o nosso, afinal, o meu bebê voltou pra casa, mas muitos não voltaram; o meu bebê é saudável, muitos não estavam.
Enfim, hoje meu Leozinho tem 1 ano e 04 meses, 10 quilos, 78 cm e não ficou com nenhuma seqüela. É uma criança linda, esperta, super saudável, só teve a primeira febre com mais de 1 ano e é a alegria de toda família.
Com algumas das meninas que cuidaram dela a gente sempre tem contado via Internet, com algumas estou em falta, pois estou devendo uma visitinha.
Pra nos dar uma força, meu irmão, que fez de tudo pra visitá-lo e não consegui entrar, quando tiramos a primeira foto, com 38 dias de internação (quando foi pro semi-intensivo), montou pra ele um fotolog na Internet, como se fosse um diário, onde todos os dias ele contava os progressos do Leo. Recebemos muitas mensagens de otimismo, muitas orações, de pessoas que de todo o Brasil. E até hoje o fotolog está no ar, e essas mesmas pessoas sempre nos visitam. Inclusive, fiz contatos com muitas outras mães de prematuros, tanto quando era eu quem tinha as dúvidas quanto depois que o Leo teve alta, e daí eram elas que tiravam as mesmas dúvidas comigo.
Tem uma em especial, que nasceu praticamente com as mesmas medidas do Leo e mesmo tempo de gestação, só que ficou com paralisia cerebral, afetando os membros. Ela é a Laila Vitória, tem 1 ano e 6 meses e mora em Santos. Criamos um vínculo muito forte, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente, acho que por termos passado pelo mesmo drama.
Em agosto Leozinho completa 03 anos, é saudável, feliz, esperto e nem de longe quemo vê pela primeira vez imagina por tudo que ele passou pra estar vivo hoje!!!!
Tenham Fé, confiem em quem cuida de seus tesouros, pois eles também têm um papel muito importante na vida de nossos pequenos guerreiros!